Pode um monge beneditino do século XI provar que Deus existe?

(Apontamentos para uma aula)
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St.º Anselmo, também conhecido por Doutor Magnífico, é considerado o pensador mais importante do século XI na história da filosofia ocidental. Ficou principalmente conhecido por ter sido o primeiro a apresentar uma prova da existência de Deus a partir da própria ideia de Deus. Este argumento que expõe na obra Proslogion (Edição portuguesa da Porto Editora, 1996. Sendo uma obra muito densa é também muito curta: 22 páginas, nesta edição.) teve mais tarde a designação de argumento ontológico. Esta demonstração é, simultaneamente, a mais célebre e a mais controversa da existência de Deus. Criticado por S. Tomás de Aquino e Kant, e defendido por Descartes e Hegel e ainda nos nossos dias é objeto de estudo e polémica.

A intenção fundamental do seu pensamento é compreender com a razão humana, a verdade que a sua fé já lhe revelou: Deus existe e é perfeito na sua existência e todos os demais seres apenas existem por Ele. Este é o desejo que o move e o leva a escrever esta obra. Primeiro publicou-a anonimamente (por humildade) com o título Fides quaerens intellectum (A Fé buscando a inteligência, ou, A Fé em busca da intelecção). Mais tarde, pressionado pelas autoridades da Igreja a assinar o seu livro, deu-lhe o nome de Proslogion, assim chamado porque foi escrito como uma oração, isto é, na forma pela qual um espírito, na sua interioridade, se dirige ao Absoluto. Este texto ficou célebre pela sua demonstração da existência de Deus como existência necessária partindo somente da ideia de Deus como ser absolutamente perfeito (trata-se, portanto, de um argumento puramente a priori). O início e também o cerne desta argumentação está nos capítulos II e III da referida obra.

Julgamos que valerá a pena transcrever o início do capítulo II:

“Portanto, Senhor, Tu que dás o entendimento da fé, concede-me que, quanto sabes ser-me conveniente, entenda que existes como acreditamos e que és o que acreditamos seres. E na verdade acreditamos que Tu és algo maior do que o qual nada pode ser pensado. Acaso não existe uma tal natureza pois o insensato disse no seu coração: não há Deus. Mas com certeza esse mesmo insipiente, quando ouvir isto mesmo que digo, algo maior do que o qual nada pode ser pensado, entende o que ouve e o que entende está no seu intelecto, ainda que não entenda que isso exista (…)”.

Partindo da definição de Deus como algo maior do que o qual nada pode ser pensado, o argumento tem, por assim dizer três momentos:

Existência de algo maior do que o qual nada pode ser pensado no pensamento, porque tudo o que de algum modo pode ser pensado existe, pelo menos enquanto pensável, no pensamento;

Possibilidade de existência real, isto é, além do pensamento de algo maior do que o qual nada pode ser pensado, no sentido de não ser contraditório ou impossível que algo que exista na mente possa também existir na realidade;

Necessidade de existência real (extra mental) de algo maior do que o qual nada pode ser pensado. Caso contrário Deus seria ao mesmo tempo algo maior do que o qual nada pode ser pensado e algo maior do que o qual alguma coisa pode ser pensada. Ora, tal seria absurdo e contraditório.

(N.B.Podemos apresentar o argumento na forma de um silogismo hipotético, que é como sabemos uma forma de inferência válida. Assim: Se Deus é algo (…), existe ao menos como ser pensável. Se existe no pensamento, poderia existir também na realidade. Logo, se Deus é algo (…), existe necessariamente na realidade.)

Para compreendermos o argumento do magnífico doutor, temos de procurar dar o máximo alcance que conseguirmos à formulação anselmiana do nome de Deus como algo maior do que o qual nada pode ser pensado. Se Deus é esse algo, não pode existir só na dimensão mental. Porque, ainda neste nível (mental), é possível pensar um ser que existisse também na realidade. Ora, tal ser seria maior que outro que só existisse no pensamento. Assim sendo, quando dizemos que Deus é algo maior do que o qual nada pode ser pensado, só seremos consequentes se o pensarmos também como realmente existente, caso contrário Ele não é o que afirmamos que é. Por outras palavras: ou Deus existe irrestritamente (infinitamente), tanto no pensamento como na realidade ou não é verdadeiramente algo maior do que o qual nada pode ser pensado.

Algo maior do que o qual nada pode ser pensado significa o caso em que o pensamento encontra a sua subordinação absoluta ao ser. Negá-lo passa a constituir a negação do próprio pensamento. Ao contrário da ideia que um pintor tem no intelecto da pintura que há de executar, ou de uma desejada ilha perdida e afortunada, que alimenta os desejos e devaneios de algum poeta, cuja existência real pode ser negada sem contradição, tal não pode acontecer com Aquele que, passe o paradoxo, é infinito por definição. O pensamento põe algo que, não só não pode negar como aponta infinitamente para além do próprio pensamento. Deus dá-se no pensamento, mas é irredutível a ele.

Vasco Queirós Araújo.